Em 18 de fevereiro, o CEO da Meta, Mark Zuckerberg, enfrentou um júri pela primeira vez diante de alegações de que suas plataformas foram deliberadamente projetadas para viciar crianças. Um conjunto de documentos internos comprometedores, alguns revelados publicamente pela primeira vez, está expondo claramente o que a empresa sabia e quando soube.
Seu funil de predadores, tolerância ao tráfico sexual, o problema dos menores de 13 anos e o impacto na imagem corporal e na saúde mental…
Zuckerberg foi interrogado por horas sobre se a empresa que ele construiu deliberadamente viciou crianças em suas plataformas e depois ocultou as evidências. Do lado de fora do tribunal, pais que afirmam ter perdido filhos em tragédias relacionadas às redes sociais seguravam fotografias de suas crianças. Dentro da sala, o advogado da parte autora exibiu uma colagem de 10 metros de largura composta por selfies publicadas no Instagram pela jovem que está processando a Meta — uma repreensão visual a anos de depoimentos de Zuckerberg no Congresso de que suas plataformas existem para promover “conexões sociais significativas”.
O caso é um julgamento emblemático ligado a mais de 1.600 processos semelhantes movidos por famílias e distritos escolares em todo os Estados Unidos. O resultado pode moldar não apenas a exposição jurídica da Meta — potencialmente na casa dos bilhões de dólares — mas também o futuro de como as plataformas de redes sociais são projetadas, regulamentadas e responsabilizadas. TikTok e Snapchat já chegaram a acordos; Meta e o YouTube, do Google, permanecem como rés, com o julgamento previsto para durar de seis a oito semanas.
O que torna este julgamento diferente de anos de depoimentos no Congresso e escrutínio regulatório é o que agora está registrado publicamente: documentos internos, registros de chats e memorandos de design que a empresa lutou durante anos para manter sob sigilo. Em conjunto, eles traçam o retrato de uma corporação que sabia que seus produtos estavam prejudicando crianças, estudou detalhadamente os danos e, em momentos-chave, optou pelo lucro em vez da intervenção.
O Que os Próprios Funcionários da Empresa Disseram
Entre os documentos mais impactantes agora apresentados como prova estão registros internos de chats da Meta nos quais um pesquisador de UX escreveu que o Instagram é “uma droga” e que os funcionários eram “basicamente traficantes”. A frase foi um comentário informal de um único funcionário, mas aparece ao lado de um conjunto mais amplo de pesquisas internas que a empresa encomendou, ocultou e, em alguns casos, suprimiu ativamente.
Os advogados dos autores alegam que os engenheiros da Meta não criaram alto engajamento por acidente — eles o projetaram de forma sistemática, utilizando o que psicólogos chamam de esquemas de recompensa variável: o mesmo mecanismo usado em máquinas caça-níqueis, onde recompensas imprevisíveis impulsionam comportamentos compulsivos.
Recursos como rolagem infinita e feeds de conteúdo personalizados por algoritmo são, segundo especialistas citados nos autos, especificamente calibrados para sobrepor os sistemas de controle de impulso ainda em desenvolvimento no cérebro de adolescentes.
A Meta contesta essa caracterização. Durante seu depoimento na quarta-feira, Zuckerberg argumentou que maior engajamento no Instagram reflete o valor da plataforma para os usuários, e não uma manipulação psicológica. “Existe um equívoco de que quanto mais atenção a empresa captura, melhor é para os resultados financeiros da Meta, independentemente dos danos”, afirmou. O advogado dos autores respondeu apresentando uma meta interna de 2023 para elevar o engajamento médio diário do usuário a 40 minutos, e uma meta de 2026 de 46 minutos.

O Problema dos Menores de 13 Anos: Quatro Milhões de Crianças
A idade mínima oficial do Instagram é 13 anos. A ação apresentada por procuradores-gerais de vários estados alega que, em 2015, a própria análise interna da Meta identificou que cerca de 4 milhões de crianças abaixo dessa idade já estavam ativas na plataforma, número que representava aproximadamente 30% desse grupo etário nos Estados Unidos.
Na quarta-feira, advogados exibiram esse documento no tribunal; Zuckerberg reconheceu que alguns usuários informam idade falsa no momento do cadastro e afirmou que a empresa remove usuários menores de idade quando os identifica. A resposta do advogado dos autores foi direta: “Você espera que uma criança de 9 anos leia todas as letras miúdas?”
Os autos também alegam que alguns dentro da empresa viam o público de 10 a 12 anos como comercialmente valioso, e que um memorando interno citava a estratégia da empresa em termos semelhantes aos usados por executivos da indústria do tabaco.
“Falando sério, ‘precisamos fisgá-los cedo’ aqui”, de conversas internas da empresa.
Essas são alegações constantes nos autos dos autores, que a Meta contesta. Mas agora fazem parte do registro público que o júri está avaliando.
Pesquisa sobre Imagem Corporal: O Que a Meta Sabia
A pesquisa interna sobre adolescentes do sexo feminino e imagem corporal está entre os elementos mais bem documentados deste litígio, em parte porque foi divulgada pela primeira vez pelo Wall Street Journal em setembro de 2021, com base em documentos fornecidos pela denunciante Frances Haugen.
Apresentações internas da Meta teriam mostrado que aproximadamente uma em cada três adolescentes disse que, quando se sentia mal com o próprio corpo, o Instagram fazia com que se sentisse ainda pior.
Separadamente, segundo a ação multilateral dos procuradores-gerais, pesquisas internas identificaram que certos filtros de “embelezamento” estavam associados à dismorfia corporal em usuários jovens.
O que é apontado como novidade — e que o julgamento atual busca em parte esclarecer — não é a existência dessas pesquisas, mas o que a Meta decidiu fazer com elas. Os autores alegam que filtros associados a danos à imagem corporal foram mantidos porque geravam maior engajamento, afirmação que a Meta contesta.
A posição da empresa é que, nos últimos anos, introduziu amplas medidas de proteção para usuários mais jovens e que a relação causal entre o uso do Instagram e os impactos na saúde mental não foi cientificamente comprovada.

Como o Algoritmo Encaminhou Crianças a Predadores
Entre as alegações mais explosivas agora perante o tribunal (e entre as menos abordadas em reportagens anteriores) está o que os autores descrevem como o “funil de predadores” da Meta: o próprio algoritmo de recomendação da empresa conectando ativamente menores a adultos sinalizados internamente como possíveis predadores infantis. O mecanismo não era um erro. Segundo os autores, era o produto funcionando exatamente como projetado.
~2 milhões de contas de menores recomendadas a “groomers” adultos pelo recurso “Accounts You May Follow” do Instagram em um único período de três meses em 2023
22% dessas recomendações resultaram no envio de um pedido de seguir por parte do adulto à criança
1,4 milhão de contas adultas potencialmente suspeitas recomendadas a adolescentes em um único dia, segundo uma auditoria interna separada de 2022
Os números vêm da versão corrigida da contestação consolidada apresentada pelos autores no Distrito Norte da Califórnia e são extraídos dos próprios dados internos da Meta. A abreviação interna da empresa para esses encontros era “IIC” — “interações inadequadas com crianças” — um acrônimo burocrático que, segundo o documento, tornou-se comum o suficiente para ganhar sua própria sigla dentro da empresa.
Pesquisadores de segurança da própria Meta teriam recomendado já em 2019 que contas de adolescentes fossem configuradas como privadas por padrão, o que teria reduzido substancialmente o contato indesejado de estranhos. De acordo com os autos, a equipe de crescimento rejeitou a proposta porque isso “provavelmente destruiria o engajamento”. A configuração privada padrão para todas as contas de adolescentes só foi implementada em 2024, cinco anos depois. No período intermediário, alegam os autores, adolescentes sofreram bilhões de interações indesejadas com adultos desconhecidos.
A Regra das 17 Infrações: A Tolerância da Meta ao Tráfico Sexual
Se a alegação do funil de predadores diz respeito ao que o algoritmo fez, a política das “17 infrações” diz respeito ao que a empresa escolheu não fazer a respeito. Segundo depoimento sob juramento de Vaishnavi Jayakumar, ex-chefe de segurança e bem-estar do Instagram, a Meta operava sob uma política interna que permitia que contas envolvidas em tráfico de pessoas para fins sexuais acumulassem 16 violações antes de serem suspensas na 17ª. Jayakumar afirmou que tomou conhecimento da política quando ingressou na empresa em 2020 e ficou imediatamente alarmada.
“Você podia acumular 16 violações por prostituição e solicitação sexual e, na 17ª violação, sua conta seria suspensa”, testemunhou Jayakumar, acrescentando que o limite era “por qualquer parâmetro do setor, um número muito, muito alto de infrações.”
Os autores afirmam que o depoimento dela é corroborado por documentação interna da empresa.
A política torna-se ainda mais chocante no contexto: ao mesmo tempo, o Instagram permitia que usuários denunciassem facilmente infrações comparativamente menores — spam, violação de propriedade intelectual, promoção de armas de fogo — diretamente dentro do aplicativo. Já a denúncia de material de abuso sexual infantil, por outro lado, não oferecia um mecanismo simples dentro do app, questão que, segundo Jayakumar, ela levantou repetidamente e ouviu que seria difícil demais de corrigir.
Resposta da Meta: a empresa informou ao USA Today que agora opera sob uma política de “uma única infração” e remove contas imediatamente após a constatação das violações mais graves relacionadas a tráfico. A empresa afirma que o limite de infrações foi progressivamente reduzido ao longo do tempo após 2019. Não contestou que a política das 17 infrações existiu.

Oito Pessoas para Oito Bilhões de Usuários: A Realidade da Equipe
O funil de predadores e a política das 17 infrações compartilham um pano de fundo comum: uma operação de segurança infantil que, segundo os autores, era catastroficamente subdimensionada em relação à escala do problema. De acordo com os autos, em determinado momento a Meta designou apenas oito pessoas — cinco engenheiros, dois cientistas de dados e um engenheiro de dados — para lidar com todos os problemas de segurança infantil globalmente em suas plataformas, que na época tinham bilhões de usuários.
Outro documento interno citado na contestação consolidada dos autores descreve a segurança infantil como “explicitamente um não-objetivo” para uma determinada equipe de produto.
Adam Mosseri, chefe do Instagram, testemunhou na semana passada que não acredita que pessoas possam ser clinicamente viciadas em redes sociais. “Acho que é possível usar o Instagram mais do que você considera saudável”, afirmou. “Excesso é relativo — é algo pessoal.” Esse enquadramento — atribuindo a responsabilidade ao usuário em vez da plataforma — está no centro da defesa da Meta.
Os Riscos Legais: Um Ponto de Inflexão para a Indústria
A Meta está travando essa batalha em várias frentes. Enquanto o julgamento em Los Angeles se desenrola, dezoito procuradores-gerais estaduais contestam separadamente a empresa na Corte de Apelações do Nono Circuito. Em janeiro, os juízes da corte de apelação demonstraram ceticismo em relação ao principal escudo jurídico da Meta — uma lei federal chamada Seção 230, que empresas de tecnologia há muito utilizam para evitar responsabilidade. Os juízes pareceram pouco propensos a encerrar o caso, indicando maior exposição jurídica pela frente.
Advogados compararam este caso aos processos contra a indústria do tabaco na década de 1990, quando documentos internos acabaram tornando a negação impossível. Este julgamento é o primeiro teste real para milhares de casos semelhantes aguardando andamento. Se o júri decidir a favor dos autores, a pressão para acordos em todos eles crescerá rapidamente.
Meta e Google estão reagindo. Os advogados da Meta argumentam que a autora já enfrentava problemas de saúde mental antes mesmo de criar uma conta no Instagram e que o aplicativo, na verdade, a ajudou a lidar com eles. O Google, por sua vez, sustenta que o YouTube nem sequer é uma plataforma de rede social — uma alegação técnica que, se aceita por um juiz, poderia isentá-lo completamente de responsabilidade.
O veredicto afetará diretamente outros 1.600 casos — e pode resultar em indenizações bilionárias ou em reformulações fundamentais na forma como essas plataformas funcionam. O que fica claro a partir dos próprios documentos da Meta, de seus próprios dados e do depoimento de seus ex-funcionários é o seguinte: a empresa fez escolhas. Agora cabe a um júri julgá-las.
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Fontes
1. Petição de Resposta Inicial dos Procuradores-Gerais Estaduais (Caso nº 24-7032)
2. Ação Multilateral dos Procuradores-Gerais contra a Meta Platforms, Inc.
3. Registros Internos de Chats da Meta e Anexo 74 (MDL nº 3047)
4. Contestação Consolidada Corrigida dos Autores às Moções de Julgamento Sumário dos Réus
5. Decisão Interlocutória do Tribunal Superior da Califórnia (Caso nº 22STCV21355)
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